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(Imperium, Fura dels Baus, 2009)
São estranhas as coisas que mais nos marcam...enraizam-se as memórias em nós e (espero) nunca mais nos abandonam. É um bocadinho peculiar associar um espetáculo sombrio (e incrível) ao início de uma relação, mas foi o que aconteceu.
Foi mais ou menos há seis anos que fui convidada para assistir à performance Imperium da Fura dels Baus. Tínhamos começado a sair há pouco tempo, ele gostava muito da Fura dels Baus e eles estavam cá em Portugal. Eu não conhecia, mas fui, curiosa. Estranhei os bilhetes, que avisavam que não se responsabilizavam por danos no vestuário de quem assistia. Lembro-me de procurarmos o pavilhão, ao fim do dia, lembro-me de estar tudo muito escuro e de me fazer sentido, de repente, que o espetáculo não fosse indicado para crianças. Eu sabia que era só um espetáculo, que prometia ser grandioso, mas aquela escuridão dava calafrios (em nada comparável à exibição em Guimarães, anos depois que, compreensivelmente pela dimensão, ficou bastante aquém das minhas expetativas).
As luzes, os gritos, que se intensificavam, o envolvimento dos espetadores num jogo de movimentos, de gestos, de invasões de espaço. E éramos "empurrados", levados, embalados, de um lado para o outro, embevecidos, sem saber bem para onde olhar. Corpos a nu, assuntos tabu a nu, discursos inflamados que nos intimidavam e nos faziam sentir na pele a fragilidade da condição humana.
E eu descobri o que era sentir-me protegida. No meio do caos, eu lembro o quão bom era sentir aquele abraço, o quão reconfortante era ter alguém que me ajudava a descobrir o caminho no meio do escuro, e que me defendia de qualquer ameaça. O abraço. O abraço forte e carinhoso como nunca tinha tido. A minha nova casa, o meu novo refúgio. O abraço.
Desejo-te a ti e a mim mais sessenta anos ao lado um do outro.
Parabéns.