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Atrevi-me a escrever

Penso, logo escrevo. Porque pouco me atrevo a dizer.

Estudasses #1*

Numa vida passada devo ter atirado pedras à cruz, muitas MUITAS pedras, e grandes GRANDES, pedregulhos autênticos. Mais...eu devo ter arrancado a cruz da parede e pisado. Ou tê-la usado como taco de beisebol

 

Isto é o que penso quando tenho que aturar tantas tantas pessoas com tantas tantas manias (o que por acaso só acontece cinco dias por semana).

 

* O irónico da coisa é que estudei...muito.

Apps para tudo

Ouvi dizer que o Ministério da Saúde vai implementar uma app que permite tratar a depressão, em casos ligeiros a moderados, e em apenas oito semanas (como se as doenças tivessem assim uma espécie de data de validade). Isto equivale mais ou menos à comunicação, da parte do Ministério da Saúde, de que a partir do próximo mês a Dona Isaura vai ter de pesquisar no Google os seus sintomas e concluir que pode ter cancro, lepra, ou apenas uma constipaçãozinha, fruto da época. Depois desta pesquisa, a Dona Isaura vai escolher como tratar as doenças que pode ter: via medicamentosa, mezinhas várias ou com o auxílio de sanguessugas. Sim, é ridículo. É tão ridículo quanto querer substituir um técnico especializado na saúde mental por uma aplicação.

Já a partir de Setembro, doentes a quem foi diagnosticada depressão ligeira a moderada deverão ser acompanhados pelo médico de família (se eles fossem competentes para tratar doenças do foro mental especializavam-se em psiquiatria...cada macaco no seu galho, gente!) e pelo smartphone. Alguém com formação em saúde mental sabe que nestes casos se deve evitar o isolamento, o que é exactamente o que  esta brilhante ideia para a intervenção promove (cada vez mais deprimidos, solitários, vazios, atrás de um ecrã). Isto é claramente uma forma de despachar utentes (não me lixem, qualquer dia marcam-nos um número de identificação no braço porque é isso a que estamos cada vez mais reduzidos: um número) e uma forma de alguém fazer (muito) dinheiro com isto. É brincar com as pessoas.

Como se a ideia não fosse suficientemente disparatada, eis que um Sr. Dr. Ricardo Gusmão dá exemplos do quão espectacular é esta maravilha informática: a app vem munida de um despertador e questiona o doente acerca do número de horas dormidas, coisa importantérrima na depressão porque é fundamental dormir; ora, eu acho que também é fundamental ouvir as pessoas e tentar um bocadinho mais fazer com que estas não façam um nó com uma cordinha em volta do seu pescoço ou não engulam uma montanha de comprimidos. Mas isto é só a minha modesta opinião.

 

Não há mal nenhum em aproveitar as novas tecnologias para serem utilizadas esporadicamente como instrumentos auxiliares de intervenção, mas nunca, NUNCA, substituir uma coisa pela outra.

Nós precisamos uns dos outros, não precisamos de mais brinquedos que nos distraem. 

 

Para ler a notícia, clicar aqui (a propósito, o título foi mal escolhido; o que a app faz não é psicoterapia...é mais um instrumento de auto-monitorização)

Spice Girls #flashback

 

 

Estava há pouco aqui o Spotify a tocar umas musiquinhas catitas, e eis que me dispara a música "Wannabe" das Spice Girls. Aaaah, as Spice Girls, esse grupo com música tão erudita ("I wanna, I wanna, I wanna, I wanna, I wanna really really really wanna zigazig ha"), mas que eu (e qualquer rapariguinha nos anos noventa) adorava! Elas eram todas shiny, todas felizes e poderosas, e como eram cinco, podíamo-nos identificar com qualquer uma delas, todas com personalidades muito diferentes (tiro o chapéu a quem teve a ideia, porque em termos de marketing foi fenomenal "publicitar" cinco moças aparentemente tão diferentes). Todas nós gostávamos mais de uma ("éramos" a escolhida, a brincar de faz-de-conta); havia sempre uma mais parecida connosco. Eu, não sei bem porquê, era a Mel C, creio que pelas semelhanças físicas, porque ela era a "Sporty Spice" e eu de sporty nada tinha.

Lembro-me uma vez de montar toda uma exibição, com mais quatro meninas, para uma professora que se ia ausentar em licença de maternidade. A música escolhida foi "Mama" (muito inteligente, eu sei, mas já não me lembro de quem foi a ideia).

Bem, fiquei toda nostálgica. E viva a explosão de cores, brilhinhos e totozinhos na cabeça dos anos noventa, e viva a música pop que nos fazia cantar aos berros.

Cachalote - um poema

Sinto-me um cachalote...

 

Pernas pesadas,

Pálpebras cansadas,

Dou passos incertos

E os olhos cobertos

De um cansaço sobrehumano...

 

Sinto que seria melhor se rebolasse,

Se o dia já acabasse,

Se o trabalho escasseasse,

E eu ficasse de papo para o ar.

 

Não é questão de gordura,

Que sinal ou não de formosura,

Sou mais magra que um palito

(Descontemos a celulite).

 

Graças a Deus pela sua dádiva divina:

Retenção de líquidos e alterações hormonais,

Humor volátil e outras características tais,

A que estamos tão habituadas desde meninas.

 

Ah essa graça de ser mulher,

Querer rapar tudo feito de chocolate à colher,

Explodir com palavras amargas,

Ser presenteada com dores várias.

Foooomeeee

Pelo andar da carruagem vou lanchar lá para as oito...pode ser que alguém pare de me pedir coisas quando me vir para aqui, desmaiada em cima do computador...(pausa dramática)

No auge da loucura roubei uma trinca ao meu pãozinho todo-ele-apetitoso, mas tive logo que interromper o meu deglutinanço-de-faminta quando o telefone tocou e era uma chamada urgente (alguém sabe o desespero que é empurrar toda uma trinca de pão contra a bochecha de forma a que o senhor do lado de lá da linha não se aperceba que estamos a falar de boca cheíssima?).

Não tarda muito vou começar a comer bocadinhos de papel e a sugar a tinta das canetas...Já faltou mais...

Fura +6

 (Imperium, Fura dels Baus, 2009)        

 

 

São estranhas as coisas que mais nos marcam...enraizam-se as memórias em nós e (espero) nunca mais nos abandonam. É um bocadinho peculiar associar um espetáculo sombrio (e incrível) ao início de uma relação, mas foi o que aconteceu.

Foi mais ou menos há seis anos que fui convidada para assistir à performance Imperium da Fura dels Baus. Tínhamos começado a sair há pouco tempo, ele gostava muito da Fura dels Baus e eles estavam cá em Portugal. Eu não conhecia, mas fui, curiosa. Estranhei os bilhetes, que avisavam que não se responsabilizavam por danos no vestuário de quem assistia. Lembro-me de procurarmos o pavilhão, ao fim do dia, lembro-me de estar tudo muito escuro e de me fazer sentido, de repente, que o espetáculo não fosse indicado para crianças. Eu sabia que era só um espetáculo, que prometia ser grandioso, mas aquela escuridão dava calafrios (em nada comparável à exibição em Guimarães, anos depois que, compreensivelmente pela dimensão, ficou bastante aquém das minhas expetativas).

As luzes, os gritos, que se intensificavam, o envolvimento dos espetadores num jogo de movimentos, de gestos, de invasões de espaço. E éramos "empurrados", levados, embalados, de um lado para o outro, embevecidos, sem saber bem para onde olhar. Corpos a nu, assuntos tabu a nu, discursos inflamados que nos intimidavam e nos faziam sentir na pele a fragilidade da condição humana.

E eu descobri o que era sentir-me protegida. No meio do caos, eu lembro o quão bom era sentir aquele abraço, o quão reconfortante era ter alguém que me ajudava a descobrir o caminho no meio do escuro, e que me defendia de qualquer ameaça. O abraço. O abraço forte e carinhoso como nunca tinha tido. A minha nova casa, o meu novo refúgio. O abraço.

Desejo-te a ti e a mim mais sessenta anos ao lado um do outro.

Parabéns.

E novidades, há?

O blog está sucatito, eu estou meia depré, por isso procuram-se notícias:

 

Que não sejam sobre bullying;

Que não estejam relacionadas com futebol e violência policial;

Que não tragam FMI, Troika e falta de dinheiro no bico.

 

(E tenham peninha de mim, parabéns aos benfiquistas, nada sobre o Bicampeão Nacional senão precisarei de Rennie.)

 

Ok, eu aguardo...

"Selfie-centered"

Ao que parece (ver aqui), as raparigas passam em média 5 horas por semana a tirar selfies. Quererá isto dizer que a nossa sociedade está cada vez mais rendida à futilidade, ao egocentrismo e, ao mesmo tempo, a uma enorme solidão onde cada vez estamos mais perto e mais longe uns dos outros?

No outro dia queixava-se a minha irmã de que, numa tentativa única de ir a uma discoteca enquanto quase-quarentona-e-mãe-de-filhos, constatara que as miúdas de hoje não fazem mais nada do que tirar selfies e mexer no telemóvel. Não interagem (se bem que o barulho de uma discoteca não é lá muito propício à interação), não se parecem divertir; posam e fotografam. E nem a comida escapa a estas modas. Sim, é ver a quantidade de gente que tira ziliões de fotos aos pratos antes de comer, como se a comida fosse desaparecer da face da Terra a qualquer instante (até nas praças de alimentação dos centros comerciais, cuja comida geralmente não prima pela fotogenia).

Se por um lado, é bom ser cada vez mais fácil "congelar" os momentos, fotografando-os, por outro, a banalização disto faz com que cada vez se dê menos importância a tudo e cada vez mais se viva mais atrás de ecrãs.

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