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Atrevi-me a escrever

Penso, logo escrevo. Porque pouco me atrevo a dizer.

Até eu que sou eu...

...não me aguento. Nem os outros, nem as sombras, as luzes ou os barulhinhos estridentes que as pessoas fazem ao respirarem, falarem, comerem, até ao existirem. Apetece-me pegar nos longos discursos e nas palavras tontas e atirá-las às testas, como livros enfadonhos do tamanho das muito antigas listas telefónicas. Toda eu sou digital e o mundo aborrece-me. E pior, irrita-me. As minhas maneiras esquecem-se de obedecer ao meu bom senso e franzo o nariz, as sobrancelhas, a boca, numa cara feia infinita, mordaz, assustadora. Todos sabem que, hoje, são, na melhor das hipóteses, maltratados por mim. Dói-me a luz que entra pela janela, corro as cortinas e ainda assim ela teima em entrar. Tal como as pessoas. Teimam em magoar a minha má disposição com simpatia, ousam em escutar-me no meu silêncio feio. E eu quero partir num grito imenso.

Deve ser da água...

...ou então alguma coisa no ar! Os estimados coleguinhas andam todos pegados uns com os outros, acho que vou distribuir Victan pelos gabinetes, uns pauzinhos de incenso e umas barrinhas de chocolate, a ver se a malta não desata à batatada (se bem que, se tal acontecer, sento-me a assistir...pelo sim pelo não vou também deixar aqui um saquinho de pipocas).

Só eu tenho...

...uma mãe que faz um festival tremendo se por qualquer motivo não chego a casa à hora habitual (incluindo a construção do que me teria acontecido, eu que por ainda não estar em casa certamente estaria falecida numa valeta qualquer), e não atende a porcaria do telefone durante uma tarde inteira!

Direitos

 

 Tanta gente morreu, tanta gente foi encarcerada pela luta pelos direitos que julgava merecer...e tantos direitos foram obtidos a ferro, suor e lágrimas.

Tenho todos os direitos do mundo...menos o direito de rabugice.

Concordo que não sou sempre pacífica e de fácil contacto, mas se há coisa que me aborrece é não ter direito a estar aborrecida. Se me vêem calada, deixem-me estar calada, se me vêem séria, deixem-me estar séria. Porque não estou sempre para me rir das piadas, porque não estou sempre disposta a ouvir sequer a minha voz. E está tudo bem, só preciso do meu canto e apenas o meu canto precisa de mim. Não me chateiem e eu prometo não chatear. 

 

Atrevi-me a protestar

(Spoiler-alert: bullshit's coming!)

Adoro aqueles textos cheios de clichés e conselhos, factos da treta e conclusões de merda. Ora bem, artigos associados ao tema "comportamento" têm destas coisas. Num campo tão vasto e complexo como é o comportamento humano, nós pegamos em meia dúzia de chavões e arrotamos meia dúzia de textos "chapa cinco", que se podem aplicar a todos, até ao cão e ao periquito de estimação. Portanto, para quem ainda não sabe:

  • ter medo é mau (ide-vos catar, o medo e a ansiedade são adaptativos e apenas nefastos quando em demasia; por outras palavras, se um animalzinho, que é o que somos na verdade, não tiver receio de se atirar para um poço, provavelmente vai morrer, vão todos morrer e a espécie extingue-se...got it?)
  • devem agarrar o presente com força e não deixar escapar as oportunidades (mas como que caralho se agarra "o presente"? E quanto às oportunidades, já alguém se apercebeu que, geralmente, só nos apercebemos que perdemos uma oportunidade quando...errrr...esta já passou? E que deixamos passar oportunidades porque pensamos que não é do nosso melhor interesse aproveitá-las?)
  • devem largar ódios e sofrimento (eh pá, também acho isso, excepto quando nos dão palha para ler, constantemente, como mentecaptos que somos...aí já fico um bocadinho fula. Também acho que devíamos abraçar a dor, mais ou menos na mesma linha do abraçar o presente...imaginem que se espetam contra um muro, ou que alguém vos apanha numa esquina escura e vos dá uma porrada...entre nódoas negras, ossos partidos e umas pocinhas de sangue, devemos esboçar um sorriso e abraçar essa dor, porque o ódio e a raiva e o sofrimento fazem mal e coiso...)
  • devemos gastar a nossa energia unicamente no que gostamos (que coincidência, penso nisso todos os dias, enquanto me arrasto para fora da cama num esforço titânico, para o frio, às sete da manhã, para um trabalho que não me dá saúde, que eu não gosto, mas que me dá um salário ao fim do mês...porque nem toda a gente vê com bons olhos ser sustentado para todo o sempre pelos papás já que não se arranja assim nada que se goste e dê dinheiro)
  • é comum encontrarmos dificuldades ao longo da nossa vida, sendo que o fundamental é encontrarmos soluções para as mesmas (REALLY????)

 

O peso da idade

Os pais. Quando era pequenina, olhava para cima, dos meus baixos centímetros, para ver os pais, tão grandes, tão fortes. Eles podiam tudo, conseguiam tudo, de uma forma que me tranquilizava, nos meus maiores medos, nas minhas maiores angústias. A minha mãe pegava em mim, sentava-me no seu pé e baloiçava-me enquanto cantava; o meu pai ia buscar-me à escola, pegava em mim ao colo e apertava-me para debaixo do guarda-chuva para eu não molhar os meus pés nas poças de água. Depois veio a adolescência, e todas as zangas e todos os queixumes agarrados a esta idade...e as discussões existiam, assim como existia o "bater com a porta" em sinal de protesto e a vergonha de ir passear com a família. Mas, ainda assim, nenhum outro ombro acolhia a minha cabeça, nenhuma outra mão me enxugava as lágrimas, nenhuma outra alma me escutava assim, quando os dias se mostravam negros. Eles estavam e estão para mim. Ali, aqui. Eles estão. Porém, do alto dos meus quase trinta anos, começo a notar uma fragilidade diferente no rosto dos meus pais. Por estes dias tenho sido confrontada com quedas, doenças e incapacidades, casos de perda para pessoas que me são próximas e tenho pensado...quando nos apercebemos mesmo que nós, enquanto filhos, passamos a ser responsáveis pelos nossos pais? Quando nos apercebemos de que já não são os pais que nos ajudam a levantar, mas devemos ser nós quem lhes ampara as quedas? Quando é que começamos a ter medo?...

"Old habits die hard"

Agora adulta, consigo ver-me como se existisse fora de mim, analisar-me sem pudor, tocar nas próprias feridas e reconhecer-lhes o seu valor. Hoje eu vejo que não me falta jeito, valor, arte; o que tenho em falta é a persistência que define os grandes. Não a tenho em mim, e até de a ganhar eu desisti. Poucos ou nenhuns são aqueles que nascem com aptidões extraordinárias, que quase não exigem treino (e ainda assim, repito: quase). Aos outros, comuns mortais, esperam-lhes longos caminhos a percorrer, cheios de quedas e recomeços. Eu desisto das coisas mais estúpidas: das leituras, das costuras, das danças, das músicas e das malhas...às vezes, até de mim, acho. Porque um dia me senti incapaz, porque comecei a fazer do tempo uma dificuldade ainda maior do que é na realidade, porque acho que de tudo, nada é para mim, ou só porque sim. E são estas as minhas verdades inabaláveis que a muito custo tenho de derrubar.

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