Até eu que sou eu...
...não me aguento. Nem os outros, nem as sombras, as luzes ou os barulhinhos estridentes que as pessoas fazem ao respirarem, falarem, comerem, até ao existirem. Apetece-me pegar nos longos discursos e nas palavras tontas e atirá-las às testas, como livros enfadonhos do tamanho das muito antigas listas telefónicas. Toda eu sou digital e o mundo aborrece-me. E pior, irrita-me. As minhas maneiras esquecem-se de obedecer ao meu bom senso e franzo o nariz, as sobrancelhas, a boca, numa cara feia infinita, mordaz, assustadora. Todos sabem que, hoje, são, na melhor das hipóteses, maltratados por mim. Dói-me a luz que entra pela janela, corro as cortinas e ainda assim ela teima em entrar. Tal como as pessoas. Teimam em magoar a minha má disposição com simpatia, ousam em escutar-me no meu silêncio feio. E eu quero partir num grito imenso.
