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Atrevi-me a escrever

Penso, logo escrevo. Porque pouco me atrevo a dizer.

Aos aplausos das janelas...juntemos acção!

Em dias conturbados, multiplicam-se as manifestações de gratidão àqueles que cuidam de nós...Mas será de aplausos e manifestações populares, facilmente "partilháveis" nas redes sociais, que vivem os nossos profissionais de saúde?

Vejamos: relatos de falta de material de protecção individual, relatos de falta de material necessário para tratar convenientemente os doentes...Aos médicos e enfermeiros é-lhes pedido que usem uma máscara por dia (12 horas a bulir com um equipamento que deveria ser utilizado por um quarto deste tempo...), que improvisem, que inventem.

Começaram hoje a testar utentes de lares em massa, porque é uma população de alto risco, porque os números de infectados nestes meios têm sido alarmantes nos últimos dias...E já agora, vão aproveitar e testar igualmente os profissionais, os cuidadores dos mesmos. Porque é necessário. Porque estão em risco.

Embora isto seja um passo extremamente importante e necessário (repito: importante e necessário), não consigo evitar em ver este acto como um golpe publicitário para calar as perguntas de quem viu na comunicação social a gestão desastrosa destes casos nos lares portugueses.

E então, e os nossos profissionais de saúde? Onde estão os testes para os médicos, enfermeiros e auxiliares que lidam com doentes e colegas infectados? Já que não há cá quarentena para eles...onde estão os supostos testes? Não devem só testar alguns, senhores! Todos, testem todos. Eles estão em perigo e precisamos muito deles que cuidam de nós. Vejam por favor o que acontece se um profissional de saúde assintomático mas infectado lida com com centenas de pessoas, muitas delas em estado clínico frágil...

Vieram os aplausos, venham agora os cuidados, a protecção, a defesa, que em mais nada podemos ajudar...

Tempo indeterminado

Estou em casa. Estamos em casa.

Acordo em casa. Como em casa. Trabalho em casa. Descanso em casa. Adormeço em casa.

Sou uma sortuda. Somos uns sortudos que, apesar de tudo, de maiores e menores dificuldades, lá nos vamos conseguindo isolar (fisicamente) do mundo.

Mas o que me assusta, o que nos assusta, o que nos consome mais do que podemos sequer imaginar...é o "por tempo indeterminado". Faz parte do ser humano fazer planos, debaixo de uma ténue sensação de controlo (ainda que fugaz, ainda que irreal). Já lá diz o ditado..."O Homem faz planos e Deus ri-se". Estamos sem planos, e os que tínhamos já não os temos. E os que ainda temos não sabemos se os poderemos manter...

Espalham-se pelos meios de comunicação social dicas para fazer o melhor (e repito: mesmo o melhor, que parece preparar pessoas que estão em casa sem absolutamente nada que lhes encha as horas) do tempo livre. É louvável esta tentativa, o único problema é que não é ajustado à realidade da maioria das pessoas.

Estou em casa, e posso dizer com segurança que têm sido os dias com menos descanso de toda a minha vida...Eu trabalho de casa e arrisco-me a dizer que as entidades empregadoras não estão de todo receptivas ao que significa começar, de repente e de forma forçada, a trabalhar no mesmo local onde se tem de cuidar da família. Não há adaptação, não há margem para erro. Pelo contrário, deve haver um esforço inconsciente para fazer sempre mais, mais horas, com mais afinco, simplesmente para provar que estamos em casa, mas estamos a trabalhar, simplesmente para justificar o salário que vamos receber no final do mês.

 

Mas ainda assim...é o "tempo indetermindado" que me aterroriza...

Tanto tempo sem abraçar a família, sem rir e deitar conversa fora.

Tanto tempo...e não sabemos ao certo quanto...É tão difícil ter agora esperança, quanto o é ao percorrer um túnel escuro, sem saber a quantos quilómetros se verá a luz...

Não sabemos até quando temos de esperar. E como vamos nós ajustar o passo nesta maratona se não conseguimos saber onde estará a meta?