Agora adulta, consigo ver-me como se existisse fora de mim, analisar-me sem pudor, tocar nas próprias feridas e reconhecer-lhes o seu valor. Hoje eu vejo que não me falta jeito, valor, arte; o que tenho em falta é a persistência que define os grandes. Não a tenho em mim, e até de a ganhar eu desisti. Poucos ou nenhuns são aqueles que nascem com aptidões extraordinárias, que quase não exigem treino (e ainda assim, repito: quase). Aos outros, comuns mortais, esperam-lhes longos caminhos a percorrer, cheios de quedas e recomeços. Eu desisto das coisas mais estúpidas: das leituras, das costuras, das danças, das músicas e das malhas...às vezes, até de mim, acho. Porque um dia me senti incapaz, porque comecei a fazer do tempo uma dificuldade ainda maior do que é na realidade, porque acho que de tudo, nada é para mim, ou só porque sim. E são estas as minhas verdades inabaláveis que a muito custo tenho de derrubar.